Wisdom of the Oracle - Flexível (Carta 19)

 


Já faz três anos que tento aprender dança do ventre. Sim, três anos! Comecei lá em 2020, nas minhas primeiras aulas… mas mal tive tempo de me aprofundar antes que a pandemia interrompesse tudo. Quando as aulas voltaram, ainda sob as regras de distanciamento, eu mais faltava do que ia. E quando, enfim, um novo professor assumiu a turma, me afastei por mais seis meses para focar na faculdade.

Bom… focar na faculdade é modo de dizer. Quem conhece a Michele sabe que meu grande aliado acadêmico se chama Brainly. Sim, eu sei, é um problema. Mas hoje não quero falar sobre minha falta de compromisso. Afinal, o título desta carta é Flexibilidade.

E a primeira coisa que a dança me ensinou é que flexibilidade não é só física. Mas vamos começar pelo corpo.

Quando você inicia qualquer prática corporal, descobre músculos que nem sabia que existiam — até o momento em que te pedem para girar para a direita e seu reflexo insiste em te mandar para a esquerda. “Levanta o braço direito, menina!”… E lá estou eu, levantando a perna. E segue o baile.

O mais difícil não é apenas perceber que você perdeu flexibilidade. É perceber que você não se conhecia de verdade até aquele momento. Logo eu, que na infância fazia ponte, dava mortal de costas, dominava bambolê e era praticamente feita de borracha, fui me enferrujando ao longo dos anos. Meus movimentos encurtaram. Meu corpo perdeu domínio sobre si mesmo.

A dança tem me permitido resgatar essa flexibilidade. E mais do que isso: estendê-la à minha mente e ao meu coração.

Na mente, venho aprendendo a me abrir para novos pontos de vista, a entender que não sei tudo e que cada pessoa carrega convicções moldadas por sua própria história. Claro, ainda sou teimosa e inflexível em muitas situações. Mas estou aprendendo.

No coração, a flexibilidade me ensina que guardar mágoas é um fardo desnecessário. Que a angústia de querer mudar o passado só consome energia. Ela trabalha minha empatia, meu discernimento, minha coragem.

Flexibilidade me desafia, mas também me ensina a aceitar. Ela me convida a ter uma mente aberta para os diversos universos que cruzam o meu caminho, ao mesmo tempo em que fortalece minhas raízes. Com ela, celebro minha origem, honro meus ancestrais e aceito as estações do meu próprio ser como fases passageiras — todas ricas em aprendizado.

A natureza nos dá a maior lição sobre isso. A árvore que parece morta no inverno segue firme em seu solo. Nenhuma estação é eterna. A primavera sempre chega, trazendo flores, renovando sonhos e nos ensinando a ser flexíveis às mudanças da vida.

A flexibilidade me trouxe até aqui. E sigo aprendendo! Afinal, ainda há um quadril para ser solto nessa dança e movimentos que quero dominar com maestria.

E você? Como lida com a sua flexibilidade?